Uma nova maneira de ver TV

Serviços de streaming na web e opções da TV paga permitem aos usuários redefinir a forma de assistir a atrações favoritas, como séries e filmes.

Karina Passos é apaixonada por programas de culinária. Crédito: Arthur de Souza/Esp.DP/D.A Press

A grade de programação da vida da dermatologista Karina Passos inclui: cuidar dos dois filhos, atender a pacientes em hospital, achar brecha para o almoço, dar expediente em consultório particular, ir à 
academia
 de ginástica, estudar, jantar em família e realizar uma infinidade de atividades até “apertar o off” e (ufa!) dormir. A rotina atribulada já a impediu de acompanhar os programas de TV favoritos, especialmente os de gastronomia, dos quais aprendeu a gostar ainda criança, ao lado da avó. Mas a frustração faz parte do passado: “Dou plantão toda quinta-feira à noite, quando passam os programas de culinária, como Diário do Olivier e Que marravilha! (GNT, na TV paga). Gravo todos e assisto nos fins de semana”. Agora, é Karina quem controla o quê, quando e onde assiste.

A autonomia da médica é consequência de um fenômeno revolucionário na forma de assistir a filmes e programas proporcionado por uma combinação bem-sucedida entre internet e tecnologia. Em outras palavras, a soma do avanço do serviço de streaming (distribuição de conteúdo pela web) com as facilidades criadas por emissoras de TV por assinatura - para gravar, estocar e oferecer até séries inteiras aos assinantes. 

Não por acaso, o canal de streaming norte-americano Netflix se tornou o queridinho de filmes, séries, novelas e documentários na internet. Com uma política agressiva de R$ 16,90 por mês e uma oferta ilimitada de produtos para serem vistos a qualquer hora (e em qualquer lugar), o endereço atraiu uma legião de viciados em séries. O universo de fãs inclui o produtor musical Rafael Borges, de 27 anos. Ele nunca teve o costume de assistir a séries na televisão. Antes, alugava DVDs de temporadas. Hoje, acompanha tudo pelo computador.

“Uma das razões para eu ver no computador é a facilidade de poder assistir de uma vez só. Não tenho paciência para esperar uma semana e ver novo episódio. Não tenho que me adequar aos horários da programação. Tenho TV a cabo, mas prefiro assistir online”, diz ele, que acompanha séries como Criminal minds, Breaking bad e 
House
 of cards. 

A possibilidade de assistir a maratonas é um dos diferenciais de serviços online. Alguns se interessam por séries antigas, que já foram canceladas. Sem o hábito de ver na televisão, a estudante de jornalismo Olívia de Souza, de 24 anos, assiste atualmente a Arquivo X (The X-files), cancelada na TV aberta em 2002. “Gosto de ver séries investigativas. O serviço (do streaming) acabou com a cultura de aluguel”, avalia. 

Muitos telespectadores “atrasados” se rendem a temporadas inteiras em poucos dias. É o caso da família da mestranda Mariel Cadena, de 24 anos, que compartilha o vício com a irmã e a mãe. Ela baixa séries na internet, converte e assiste na televisão. “Quando comecei a ver Dexter e Supernatural, já estava na quinta ou sexta temporada. Em menos de 15 dias, eu me atualizei. Ou seja, vi cerca de 88 episódios nesse período”, recordou. Mariel assiste a Glee, Once upon a time, CSI. Com a mãe, acompanha séries tradicionais como Downtown Abbey. O vício é tamanho que a família decidiu não ter televisão por assinatura. “A gente já passou tanto tempo na frente da televisão, vendo séries, que achamos melhor não”, ponderou.


Comportamento


O novo hábito é aguçado pela intromissão bem-vinda das redes sociais. Usadas na hora de assistir à TV, elas interferem diretamente na escolha dos telespectadores. Uma pesquisa feita por empresa de telefonia constatou, em 2012, que 60% da audiência brasileira acompanha os programas de olho nas redes. Segundo o Ibope, no ano passado, 80% já mudou a atração vista a partir de um pitaco vindo da web. 

O professor e pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul Fábio Cannata estuda a influência disso sobre hábito de assistir à televisão. Diz ele: a programação da TV está longe de perder a tradição. “Isso reforça a valorização de programação da TV ao vivo e o hábito de assistir com alguém (mesmo à distância). Ela se torna um evento, e os telespectadores viram participantes”, frisa.

Os novos tempos, no entanto, fazem carga sobre a forma de se relacionar diante da TV. Se, em um passado recente, o aparelho servia para momentos de reunião familiar, agora as coisas mudaram. “O surgimento das novas mídias traz uma fragmentação da atenção. Com a transmissão em várias partes da casa, isso muda as relações sociais. As famílias dialogam menos sobre conteúdos exibidos”, diz o professor de sociologia da comunicação da Universidade Católica de Pernambuco Nadilson Silva. A dermatologista Karina dá de ombros para a discussão. E celebra a chance de conciliar trabalho, lazer e entretenimento: “É cômodo para quem tem vida agitada como eu”. 

Fonte: Folha PE

Postar um comentário

Seu comentário será submetido a análise, se aprovador estaremos publicando-o em breve.

Postagem Anterior Próxima Postagem
Responsive Advertisementjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjj