O Recife viveu nos momentos pré-eleitorais deste ano uma dura luta
política em torno do tema do direito à cidade. O palco desta luta foi a
área do Cais José Estelita. Uma multidão de cidadãos se mobilizou para
questionar a construção de um empreendimento que obedece à lógica que
vem transformando nossas cidades em locais de difícil convivência, o
Projeto Novo Recife.
Longe de ter sido uma luta episódica e conjuntural, aquela luta
política mais dura, com ocupação do terreno por um longo período e uma
ação violentíssima da polícia para desalojar os ocupantes, foi o
episódio mais agudo de um processo que se arrasta desde 2011 pelo menos,
com audiências públicas na Câmara de Vereadores e na ALEPE, com
turbulências na gestão do Ministério Público, que inclusive substituiu
uma promotora pública que iniciou o questionamento legal do projeto, com
ações políticas e jurídicas sobre o Conselho de Desenvolvimento Urbano
da PCR, com mais de uma ocupação do prédio da prefeitura para que vícios
de origem na liberação do projeto não se consolidassem na condução do
processo de liberação da obra. Enfim, fazem pelo menos três anos que a
sociedade recifense está mobilizada em torno deste tema.
É lamentável e inaceitável que exatamente num processo como este, em
que a sociedade exercita sua participação popular de forma espontânea e
engajada, os gestores municipais, o prefeito Geraldo Júlio, queiram
fechar este processo excluindo a sociedade civil organizada no Movimento
Ocupe Estelita da audiência pública que supostamente tratará de
supostos redesenhos no projeto original, tão questionado. Toda esta
mobilização popular, que se organiza e se expressa no Movimento Ocupe
Estelita, não foi sequer convidada para esta audiência supostamente
pública.
É dispensável tratar aqui dos problemas que vemos neste projeto, nos
vícios conceituais que carrega, pois isso já estamos fazendo há anos. Há
que se trazer à tona agora um novo mérito que se abre: o papel
malandro, antidemocrático e antirrepublicano da atual gestão municipal.
Está claro, com este desfecho que pretendem dar, que tudo não passou de
teatro. A intermediação do prefeito Geraldo Júlio, diante do volumoso
conflito instalado na cidade há poucos meses, queria, na verdade,
unicamente desmontar a mobilização social, acalmar financiadores de
campanha e tê-los do seu lado no processo eleitoral que se encerrou há
poucos dias, para logo após o período crítico voltar as costas para a
sociedade e prostrar-se de joelhos novamente ao capital privado que lhe
sustenta numa relação de troca de interesses.
Engana-se o prefeito e sua gestão se pensam que conseguem com essas
manobras calar ou derrotar as forças sociais que lutam pelo direito à
cidade. Estamos e estaremos juntos com o Movimento Ocupe Estelita, nas
ruas, nos tribunais, nas casas legislativas, combatendo por uma cidade
para as pessoas, e não apenas para algumas pessoas e seus carrões e
helicópteros – pois neste caminho o que nos espera é o caos de cidades
como São Paulo. Episódios como esta manobra antidemocrática de
baixíssima categoria, só revelam que esta gestão tem lado, o lado das
grandes construtoras e das elites.
*Edilson Silva é deputado estadual eleito em 2014 pelo PSOL
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