Goiana: Um frade que virou prefeito da cidade

O ano é 1966. O Brasil vive o período de chumbo da ditadura militar. Enquanto o País atravessa um dos capítulos mais tristes de sua história, a população do município de Goiana, na Mata Norte de Pernambuco, vai na contramão do poderio das forças políticas apoiadas pelos militares e elege prefeito Frei Tarcísio, um frade considerado por muita gente da cidade como um “santo”, por sua dedicação às causas humanitárias e à luta incessante por justiça e igualdade social.

A jornada do frade rumo à prefeitura foi memorável e seus comícios e passeatas atraíam multidões portando velas nas mãos. A população é que bancava os custos com a campanha, doando dinheiro e diversos objetos de valor durante as reuniões políticas, como geladeira, guarda-roupa, fogão. “A campanha era pobre, não tinha recursos e o povo doava espontaneamente. Nunca vi algo parecido, era surpreendente”, recorda o comunicador Vilmar Gomes, veterano locutor em eleições majoritárias no município.

A campanha ficou conhecida como o “Tostão contra o Milhão”, cuja simbologia representava a luta do povo contra os poderosos da região, uma vez que a política e a economia locais sempre giraram em torno dos grandes latifundiários da cana-de-açúcar e das tradicionais oligarquias dos Rabelo e dos Gadelha.

Modestino de Arruda Fontes era o nome de batismo de Frei Tarcísio, falecido aos 85 anos de idade, no mês passado. Natural do município de Souza, na Paraíba, mudou-se para o Convento Carmelita de Goiana aos 12 anos, ordenando-se sacerdote em 1953.

Em 1966, apesar do apoio do clã Gadelha, Frei Tarcísio era tido como o candidato da renovação. Representava a ruptura na alternância das duas famílias no controle da prefeitura. Entrou para a memória política da cidade por protagonizar a campanha mais surpreendente que o município viu até hoje, ostentando o lema da Justiça e Fraternidade, em que defendia, sobretudo, maior assistência aos mais necessitados.

Ele conseguiu derrotar o candidato da forte oligarquia Rabelo com o maior percentual de votos válidos (mais de 70%) registrado na cidade até os dias atuais. Venceu o pleito pelo então MDB, apoiado pelos gadelhistas, inimigos ferrenhos dos rabelistas, ligados à extinta Arena, partido que deu respaldo ao golpe militar de 1964 e adversário do MDB.

A princípio, segundo relatos, o religioso não queria envolvimento com a política partidária. Costumava dizer que preferia ficar ajudando o povo “a se envolver nessa coisa emporcalhada que é a política”, segundo lembram os aliados.

Por sua natural popularidade e carisma, logo foi assediado pelo grupo do ex-prefeito de Goiana Lourenço Gadelha, que o procurou e o convenceu a sair candidato contra Dilermando de Barros Carvalho (da Arena), apoiado pelo ex-deputado estadual e também ex-prefeito do município, Osvaldo Rabelo.

A candidatura de Dilermando era tida como imbatível e a estratégia do rival acabou dando certo. Frei Tarcísio ganhou a eleição em todas as urnas da sede e distritos do município, impondo uma derrota acachapante à família Rabelo, que só viria retornar ao poder em 1988, com a eleição de Osvaldo Rabelo Filho (à época, filiado ao PFL, ex-Arena).

No entanto, a prefeitura sofreu intervenção e o mandato do frade durou apenas dois meses e 16 dias.

Fonte: jconline

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